Incoerência
que assim o faz em tom jocoso,
repleto de disfemismos e hipérboles.
Sou aquele que um dia falou
e hoje se cala
em solene respeito.
eu sou assim / uma grande mistura / de pouca coisa. / eu era / um sorriso cubista / com charuto cubano. / queria ser / algo de fantástico / em poucas palavras. / mas eu sou / ao ponto que me cabe / silêncio. / e nada mais. | (R. Guarilha)
'É de ódio que precisamos, dele nascerão as nossas idéias.'
-- Jean Genet
E o toque torna-se frio
Gélido
O suor risca-me a fronte
Cortante e uivante.
Perco-me em meio à palavras
Estranhas ao meu vocábulo
Perco-me em pensamentos
Dominantes
Torna-se, o mundo, sombrio e obscuro
Resta nada além de um leve tremor
Incontrolável
Inconcebível
Rarefeito
Fatigante
Pulsante.
E nem as marés, com sua infindável fúria
Nem os tufões, com sua inexorável violência
Nem as tempestades e toda sua despiedade
Nada pode eqüiparar-se
Nada é tão intenso e tão sutil
Tão óbvio e tão discreto
Tão discrente, tão incerto
O mal cresce, controla
Incrédulo, entrego-me ao seu domínio
Consumo-me, consome-me, consumo-o
Um mutualismo fictício
Uma relação inexistente
Um período relativo
Nada torna-se o que deveria ser
Porém, o sentido existe e aqui o encontro
À libertação, os tolos
À catarse, os merecedores
A minha, aguarda-me
Em algum lugar entre o silêncio e a ópera
Pois não seriam mil violionos a farzer-me calar
Não seriam mil retratos a fazer-me parar
Muito menos seriam dez mil desculpas a fazer-me cessar
Estou entregue
Completa-me
Guia-me
À catarse
E nada além disso
Estou entregue
Ao ódio
As coisas que tangem as esferas dos sonhos são sempre complexas, tratam de planos, esperanças, desejos, ensejos, enfim, tratam de fornecer-nos a vontade que precisamos para continuar, são nossos propulsores. Henri Alain-Fourier disse que ‘a aproximação é sempre mais bela que a chegada’, perfeito, se pudermos laconizar o que agora penso, essa seria uma boa tentativa. Acontece que há diferenças sutis em certas situações, como em mudar de aspirações, o que é perfeitamente corriqueiro e natural, e alcançar seus objetivos e decepcionar-se. Ao tornar-se, a tua quimera, em realidade, em palpável, em cotidiano, e percebes-te que nada é do que fantasiara, que a verdade é mais cruel e menos exímia, sobra-te apenas a desilusão, diluída em um imensurável vazio a consumir-te as entranhas. Assim o foi comigo, estabeleci metas, talhei objetivos, aspirações máximas que me exigiam uma extrema dedicação, que tive constantemente, e supunha recompensas condizentes a este desprendimento absurdo, mas não tive. O Instituto tornou-se uma decepção tamanha, a compendiar a minha vida e os meus esforços, tornou-se minha glória e meu pesar, meu orgulho e meu fracasso. Renome não é tudo, muito pelo contrário, renome não passa de um detalhe a nos afagar a vaidade, um ato ilusório de que a ambição de outrora se fez valer, e muito. Nenhuma decisão, não nestas esferas utópicas, pode ser tomada irresponsavelmente, sem despendo de muita reflexão e autoconhecimento, sem muito estudo e coragem. Coragem, aí está o diferencial disto tudo. É intrépido postar-se defronte uma situação aparentemente confortável, como a que atualmente tenho, e abnegar o orgulho, a vaidade, a consideração com os sonhos de um dia. Finalmente, para por cabo nesta introdução que faço, citarei motivos que me fazem pensar assim, em competências acadêmicas, pessoais, físicas e trabalhistas.
Primeiramente, falarei das questões acadêmicas, como forma de mostrar-me, ainda, racional. Há fatos irrefutáveis, mas há muito que não se sabe sem estar presente na instituição. O IME tem por característica formar profissionais com alto grau de instrução teórica, entusiastas das indagações e demonstrações, quase nada do que se ensina assim é feito sem dar satisfações embasadas. Isso é um lado altamente positivo, apesar do engenheiro ser um profissional voltado para o campo prático, a base que o IME proporciona o faz capaz de desenvolver métodos e sistemas próprios e versáteis, tornando-o um possível pesquisador de boa formação. Todavia, atualmente no Brasil, a pesquisa não é a forma mais comum de emprego, principalmente pela baixa remuneração, sem contar que a prática ainda é o objetivo máximo do engenheiro, mesmo ele exercendo a pesquisa como alvo de seu trabalho. Assim, a formação ideal envolveria ambas as partes, uma perfeita combinação entre prática e teoria, entre o trabalho propriamente dito e o estudo forte e focado. No Instituto, porém, a primeira parte se faz presente de uma maneira incorreta, o nível de cobrança é, de fato, altíssimo, as matérias, complexas por si próprias, são, por vezes, excessivamente aprofundadas, de modo que tangem a inutilidade. Se considerarmos que, graças a uma seleção prévia de bons alunos, o resultado geral ainda é positivo, mesmo com uma cobrança de elevadíssimo nível, isso se deve a méritos próprios, em sua maioria de casos, pois a qualidade do corpo docente deixa em muito a desejar. Mestres sem conhecimento da matéria, militares, em sua maior parte, que são designados a lecionar cadeiras que não dominam, mas que por suas condições profissionais devem cumprir a missão delegada sem ponderações, são comuns e acabam tornando-se um empecilho, de modo que, ao cabo de poucas semanas depois do ingresso no IME, boa parte dos alunos consideram as aulas inúteis e preferem estudar sozinhos, como é o meu caso. Há a cobrança de um histórico perfeito uma vez dentro do Instituto, de não se poder repetir alguma cadeira cursada com pena de expulsão caso ocorra, de não poder tirar notas abaixo de quatro nas últimas provas de cada período, pois a recuperação é conseqüência direta disto, de não poder incorrer em recuperação em mais de duas matérias. Além disso, características militares estão presentes, o que dificulta ainda mais o convívio com a instituição.
Reclamações inerentes ao caráter militar do IME são, realmente, subjetivas, pois há os que não se importam em receber ordens irracionais e fazê-las cumprir sem discussão, há os que não têm problemas em escutar desaforos desmerecidos e fazer-se de tolo, fingindo não se tratar de si. Eu não sou assim, sou questionador, racional, inconseqüente por falar o que penso na hora que bem me apetecer, o que não é nada bem visto no meio militar. Soldados, desde generais a alunos do IME, são forjados na mesma forma, feitos sob os auspícios de um modelo preconcebido e, de preferência, com poucas características próprias. A obsessão do exército por uniformidade acaba impondo absurdos extintos, traços marcantes e claros, sombras dos tempos de ditadura que são livremente divulgadas e exigidas em meio às suas fileiras. Eu sou mal visto por pensar, por agir e por falar conforme mandam as minhas ideologias, eu sou criticado por não defender os interesses do exército, sou punido ao bem entender dos meus superiores, não interessando se estou com razão ou sem. Os que possuem poder mandam, os que não, obedecem, é simples assim. Se tu és inteligente, se tens bons intuitos, se te preocupas com o trabalho bem feito, te taxam de revolucionário, de agressor do Sistema, se indisciplinado, e te trancam, até pensares como deve, como um militar, como um subalterno. Não há discussões, não há revoltas. A hombridade, que tanto tempo levara a teu pai incutir em ti, é desprezada, tua palavra não tem valor, estás sempre errado, sempre tens o interesse de burlar alguma tarefa ou regra, sempre desconfiam de ti, mas com base, apenas, que tu és um aluno e nada mais. Tratam-te com desconfiança e desdém, a igualha não faz parte dos dicionários militares, muito menos no IME. Exaltam as características dos combatentes sempre que possível, fazendo questão de que, em todas estas ocasiões, sejam ridicularizadas as qualidades dos engenheiros militares, utilizando-se de zombarias, ofensas e desaforos, quase sempre infundados e frutos de um receio absurdo: de comandar cabeças pensantes e, ditas, as melhores mentes do país. Assim acostuma-te a ser visto como um trapo, um peso morto que o exército faz o favor de carregar, negam a tua importância, subestimam-te e te ofendem, e deves acostumar-se com isso e obedecer, pois assim é a vida nas forças armadas. Esta subordinação toda acaba por formar submissos, pessoas que não possuem o costume de impor-se senão pela antiguidade, e não pela coerência como deveria ser e como é necessário fazer-se impor em uma empresa.
Tocado este assunto, fica claro que falarei agora de questões trabalhistas, pois as questões pessoais vêm sendo tratadas desde o começo deste relato. Parece que há um culto pela ignorância e irracionalidade nas esferas da administração do IME. Ao ingressar neste, havia um comandante, que no caso é também o reitor do Instituto, que primava pela racionalidade, abria concessões pertinentes, mostrava-se complacente com a preocupação dos alunos que não se destinariam a continuar no exército brasileiro a projetar-se no mercado, a buscar um bom emprego e boas oportunidades de trabalho. Este comandante foi transferido e hoje se aposentou, em seu lugar entrou uma sucessão de incapazes, que se mostram mais irracionais a cada dia que passa. Não só foi aumentada a cobrança na parte militar, os punidos agora o são sem direitos a justificativas, não podem explicar porque cometeram tais delitos, que em sua maioria são besteiras, como um atraso, que muitas vezes é causado pelo trânsito, bem como o foi na parte acadêmica, exigindo cada vez mais a dedicação integral por parte dos alunos. Acaba que a dedicação ao IME é tamanha e o tempo gasto para tal é tão exagerado, que não sobra tempo algum para dedicar-se a algo mais, como um curso de línguas, por exemplo, ou uma bolsa de pesquisa, ou mestrado no IMPA. Isso tudo prejudica diretamente a concretização da carreira do aluno, mas prejudicial de fato é a extinção dos estágios dos quarto, quinto e décimo períodos. Imagines um pedreiro que te chega, descreve em pormenores a construção de uma casa, em todos os detalhes mais singelos, mas te confessa que nunca construiu casa alguma, que sabe o que sabe por livros e pesquisas; tu deixarias tal pedreiro construir a tua casa? A resposta é negativa, decerto. Experiência é algo que não se aprende em livros, mas sim com o exercício da profissão, como um aprendiz. A hora de errar é no estágio, a hora de mostrar eficiência também, trata-se do teu futuro, dos teus sonhos, que serão usurpados por capricho de um general, que não se interessa na tua formação, mas apenas no fazer cumprir a missão de formar militares para as fileiras do exército, dificultando a tua vida no que for possível. É repetido incansavelmente que o IME é dispensável, que deviria vir a acabar, que não possui real necessidade para o exército. Enfim, mais uma vez neste breve relato, acabamos por cair nas ofensas e nos insultos, que são mais constantes, dentro e fora de sala de aula, do que qualquer um possa imaginar. Não possui real consciência do que é o IME senão aquele que faz parte de suas turmas, aquele que vira noites atrás de noites estudando e que nunca são suficientes. Há boas oportunidades para os alunos oriundos do Instituto? Claro, isso é verdade. Mas não há boas oportunidades para apenas estes alunos. Há outras boas instituições, sérias e com mais oportunidades ainda, haja visto que o IME não assina contrato de estágios com qualquer empresas e nem com bancos de investimento, estes que o que te escreve anseia em poder trabalhar. No campo dos estudos de engenharia, dentro do IME, as opções de especialidades caíram de onze para seis neste ano, e eu estou sujeito a esta mudança, já que só escolhemos a nossa especialidade ao fim do segundo ano de curso, então, por sorte, foram extintos os dois cursos que eu tinha interesse em fazer, não sobrando assim qualquer motivo para continuar o sacrifício que é estudar no Instituto.
Desta forma, ao cabo de tamanho desabafo, espero que tenham ficado claros alguns aspectos inerentes ao título de aluno do IME. Considero que tamanho esforço não será recompensado, por todos os motivos supramencionados e alguns a mais, cuja relevância não é tão significante para fazer parte de um relato deste calibre e com intuito de justificar uma aparente medida irracional. Que fique claro que a razão anda a meu lado, a cada passo, a cada palavra que agora surge em minha tela, ela, por mais que tu penses ao contrário, se é que assim o fazes, foi quem me fez aguardar demasiado tempo até concluir tal decisão. Foi apenas a cabo de muita reflexão que a coragem surgiu, o orgulho desabou e a incerteza fez-se presente novamente dos meus planos para o futuro. Mas acontece que agora surge uma oportunidade que antes eu não via, nem na melhor das perspectivas, a oportunidade de ser feliz, coisa que há muito tempo não sou.
Raphael Guarilha