9.16.2006

Incoerência

Dirijo a minha apóstrofe a este que escreve,
que assim o faz em tom jocoso,
repleto de disfemismos e hipérboles.

Sou aquele que um dia falou
e hoje se cala
em solene respeito.

8.30.2006

Eu sou um coiote

eu acho genial quando o Coiote (o exemplo clássico do trabalhador dedicado e inteligente) com seus elaborados planos e previsões, toda a tecnologia ACME e muita esperança, acaba sendo surpreendido por uma onomatopeia simples, de um ser simples e com um único objetivo: fugir.
é genial. é filosofia.
é o alerta que nos dão nos idos anos de infância e que não aproveitamos.





chegará o dia em que estarei andando numa colina, talvez também ouça uma onomatopeia qualquer, e serei surpreendido por não haver chão sob meus pés.






eu gosto do Coiote.
infelizmente.




isso pode instigar o desalento em um mentecapto, pode ser a desgraça do parco conhecimento, um convite ao conformismo. mas nos mais afortunados surge o ódio, na sua mais pura e sincera forma. o ódio pelo que somos, pelo que vimos nos tornado ao passar dos anos. como, brilhantemente, colocou jean jenet: 'é de ódio que precisamos, dele nascerão as nossas idéias.' aos mais ditosos não caberá intentas metamórficas, mas sim a compreensão profunda da condição submissa do ser. que é só assim, conhecendo a fundo as nossas limitações profanas, que o chão voltará aos nossos pés.
e a nossa espinha dorsal não será maculada novamente por um indesejado calafrio a cada bip-bip.




por ora permaneço prostado no cadafalso, como quem aguarda os futuros tempos de afortunado.


quem sabe?

8.13.2006

Lasers

em viagens longas eu brinco com a janela do carro
olho através de um ponto preto no vidro
e foco no infinito.
o ponto duplica e seu homólogo apresenta-se claramente
como fruto do original.

e ali estão meus lasers
assim vou destruindo ruas, casas, carros
vacas, decepções e ruídos
assim os dias viram horas
e as horas, semanas
o pensamento me abandona
e carrega o silêncio e a solidão

o que sobra sou eu,
despido de sentimentos e opiniões
filosofias e empirismos
resta o auto-controle, a determinação
o entregar-se a algo sem saber o sentido
e sem entender a razão para tal comprometimento.

até que os pontos se aproximam
e voltam a ser apenas um
e meu foco não esta mais no infinito
onde de fato nunca esteve.
esse tempo todo,
em que brincava de destruir alvos inexistentes,
eu recriava a vida de forma inocente
entregava-me a um dogma supremo
sem me compreender de fato

o tempo todo eu olhava para dentro de mim
mas por não encontrar o que procurava
insistia em desviar a minha atenção

quando devia focar o infinito
e continuar recriando a vida
em todas as suas contradições;
é assim que a vida me recria
em ciclos intermináveis
de modo que ao fim da partida
o rei e o peão compartilham a mesma caixa.

Calado

Ah! que honra seria
se eu pudesse ser o poeta que cala
(multidões)

o mundo seria um sonho
se em um verso risonho
conseguisse brandir
tudo o que há p'ra sentir
(quando calo)

mas a rima é um pecado
e eu não sei delinquir.

8.03.2006

A beleza nos paradoxos

há uma certeza na vida: os paradoxos são inúmeros.

zenão propôs que um corredor nunca termina uma corrida num espaço de tempo finito. se o percurso possui 2m, após percorrer o primeiro ainda falta 1m, após metade do que falta, ainda faltará metade, sempre. ou seja, faltam 1m, depois ½m, ¼m, ⅛m... de modo que o que falta nunca é 0, pois é sempre o inverso de uma potência de 2.
entretanto facilmente completamos uma corrida de 2m.

moto-contínuo, isto é, alguma máquina que funcione infinitamente e por conta própria não existe.
mas boyle propôs que um frasco com auto-fluxo, ou seja, uma espécie de garrafa com uma mangueira no gargalo que se ligue novamente ao interior da mesma, funcionaria indefinidamente enquanto houvesse gravidade.

finalmente, para não alongar-me nos exemplos, hempel afirmou que ao observarmos qualquer coisa que não seja preta aumenta a probabilidade de todos os corvos serem pretos.
ou seja, afirmar que 'esta maça é vermelha' corrobora com 'todos os corvos são pretos'.

e quem sou eu para falar, tendo conhecimento disso tudo, que eu sou assim ou que não sou. as coisas mudam, alguém encontra um paradoxo e a terra não é mais o centro do universo, ou átomo não é mais indivisível, ou a peste negra não é a maior das nossas preocupações.

chega um dia que alguém mais inteligente que você te revela, te descobre e te assusta.
por te mostrar que você era justamente quem mais temia ser.

por isso, escrevo assim
subjetivamente.

7.15.2006

De oleiros e criações

Houve um criador, um oleiro qualquer, que de terra e água faz o sustento e o sentido. Boa parte dos oleiros da história, e com este não poderia ser diferente, da argila fizeram a vida. Por incansáveis horas permaneceu a beira da fornalha, alimentando-a, controlando-a, implorando a ajuda divina. A ansiedade tão pungente que pesava o ar sussurrava ao ouvido do nosso criador algumas palavras descrentes, sabe-se lá com que intuito. O tempo, senhor de seus caprichos, comovido com a prova de dedicação que espectava, enfim sucumbiu ao desejo do oleiro. Aberta a porta do forno, ali estava, de joelhos, a cabeça propendia, como quem lamenta a imperfeição que exibe.

Assim, criador e critatura puderam olhar-se, como quem diz Tens, agora, a vida, e quem indaga Por que devo, senhor, e o criador replicaria, sem saber ao certo se dera-lhe uma dádiva ou um dogma penoso, faria-o de modo vago e lacônico, tentaria justificar as horas de apreensão e trabalho, diria que foram sete dias e sete noites a esperar insône, mas a criatura, ainda dotada de inocência não compreenderia, Se me tendes criado imperfeito, vedes em mim um estorvo e sabeis que tornarei-me um tumor, a que fim dais-me a vida. O tempo desfalece e revolve a atenção. E a criatura atira-se ao fogo da vida que continua aceso, mesmo sendo tamanho o esforço do pranto do criador.

E o oleiro ergue a cabeça, como quem indaga os deuses.
Mas não respondem.




6.03.2006

Em todo o sentimento

'É de ódio que precisamos, dele nascerão as nossas idéias.'
-- Jean Genet

E o toque torna-se frio
Gélido
O suor risca-me a fronte
Cortante e uivante.
Perco-me em meio à palavras
Estranhas ao meu vocábulo
Perco-me em pensamentos
Dominantes
Torna-se, o mundo, sombrio e obscuro
Resta nada além de um leve tremor
Incontrolável
Inconcebível
Rarefeito
Fatigante
Pulsante.

E nem as marés, com sua infindável fúria
Nem os tufões, com sua inexorável violência
Nem as tempestades e toda sua despiedade
Nada pode eqüiparar-se
Nada é tão intenso e tão sutil
Tão óbvio e tão discreto
Tão discrente, tão incerto

O mal cresce, controla
Incrédulo, entrego-me ao seu domínio
Consumo-me, consome-me, consumo-o
Um mutualismo fictício
Uma relação inexistente
Um período relativo
Nada torna-se o que deveria ser

Porém, o sentido existe e aqui o encontro
À libertação, os tolos
À catarse, os merecedores
A minha, aguarda-me
Em algum lugar entre o silêncio e a ópera
Pois não seriam mil violionos a farzer-me calar
Não seriam mil retratos a fazer-me parar
Muito menos seriam dez mil desculpas a fazer-me cessar

Estou entregue
Completa-me
Guia-me
À catarse
E nada além disso
Estou entregue

Ao ódio

De repente o nada

De repente eu me canso.
Perdido em uma vida atordoante,
não clamarei, nas cavernas da angústia,
por um fim túrgido ao compasso
de acordes dissonantes,
que sufoca o que se fez.

De repente me canso.
O não saber senão estar,
da sucessão no caos paradoxal,
da escuridão irrompida
por clarões de napalm.

De repente canso.
Repenso e descanso,
reescrevo o descaso da história,
às limitações profanas.

De repente,
com a pungência de uma supernova,
tenho sonhos extirpados.

Leitura, interpretação e auto-conhecimento.

Lês.

Mas que sabes de quem fala?
Fala a ti apenas ou a todos?

A presunção de fazer-se humilde,
fazer-se único em meio ao todo,
em toda a contradição,
a humildade de fazer-se presunçoso.

Interpretas.

Mas o que sabes de quem fala?
Quer dizer o que aparenta querer
ou quer aparentar o que diz querer?

Posso ser a gadanha enodoada da seiva
ou do sangue, e não saberás.

Lês.

Mas o que sabes de ti?
Falas a quem?
Aparentas dizer?
Diz aparentar?

Interpreto-te.

Enodoa-te com a seiva ou com o sangue?
Não sabes. Não podes saber.

Fazemos mais que existir, eu e tu.
Na simbiose constante, a autofagia incontida,
fazemo-nos esperançosos,
denodados em fazer-nos livres,
definidamente livres.

- Consolar-vos-ei.
Disse, então, o tempo

E do extremo da gadanha, uma gota, uma lágrima.

- Não espero de vós senão contemplação.
Contemplei-vos durante muito tempo
para saber que não se pode saber
através de umas poucas palavras.

- Mas que fala o tempo de tempo?
És para ti assim como somos para nós?
Passas para ti assim como para nós?

Mas o tempo calou-se.

E digo-te, leio-te, interpreto-te,
quando, inevitavelmente,
os vocábulos escondem-te
numa carapaça de Reich.

A mesma que a minha.

Olho para dentro, vejo-te.
Sorris para mim, retribuo-te.
Podes agora conhecer quem a ti fala.

E o tempo, em seu trono, altivo
sorri conosco.

Esperanças e liberdades

Esperança,
que tendes feito todo esse tempo?
A força em ti começa,
a determinação, apioa-se,
mas a vergonha, oculta-se...

Pergunto-me, hesitante,
que devo esperar de mim.
Que fim delego às minhas palavras,
aos meus (poucos) pensamentos,
às minhas ambições...

Num momento de clareza, respondo:
absolutamente nada.

Sem Esperança perco o vigor,
a vontade, o opróbrio,
o torpor...

Sem Esperança perco a essência,
e com ela a denotação de fronteira...

para enfim conhecer-me
livre.

Epitáfio

Já morri tantas vezes
Que o suicídio me acalma
Não tenho santos ou profetas
Não sei falar da alma
Não sei falar de nada
Meu passado é minha estrada
Meu presente, meu pesar
Em minha lápide vai constar
Que nada deixei escrito
E os graves de meus gritos
Retumbando no infinito
Não são mais que rimas vagas

A mim me basta
Esse poema meia-boca
Um eu-lírico de voz rouca
Sem uma musa inspiradora

Já morri tantas vezes
Que a vida, sem sentido
Diz-me ao pé do ouvido

- Quem me dera o suicídio...

5.25.2006

Satisfações da mudança repentina

As coisas que tangem as esferas dos sonhos são sempre complexas, tratam de planos, esperanças, desejos, ensejos, enfim, tratam de fornecer-nos a vontade que precisamos para continuar, são nossos propulsores. Henri Alain-Fourier disse que ‘a aproximação é sempre mais bela que a chegada’, perfeito, se pudermos laconizar o que agora penso, essa seria uma boa tentativa. Acontece que há diferenças sutis em certas situações, como em mudar de aspirações, o que é perfeitamente corriqueiro e natural, e alcançar seus objetivos e decepcionar-se. Ao tornar-se, a tua quimera, em realidade, em palpável, em cotidiano, e percebes-te que nada é do que fantasiara, que a verdade é mais cruel e menos exímia, sobra-te apenas a desilusão, diluída em um imensurável vazio a consumir-te as entranhas. Assim o foi comigo, estabeleci metas, talhei objetivos, aspirações máximas que me exigiam uma extrema dedicação, que tive constantemente, e supunha recompensas condizentes a este desprendimento absurdo, mas não tive. O Instituto tornou-se uma decepção tamanha, a compendiar a minha vida e os meus esforços, tornou-se minha glória e meu pesar, meu orgulho e meu fracasso. Renome não é tudo, muito pelo contrário, renome não passa de um detalhe a nos afagar a vaidade, um ato ilusório de que a ambição de outrora se fez valer, e muito. Nenhuma decisão, não nestas esferas utópicas, pode ser tomada irresponsavelmente, sem despendo de muita reflexão e autoconhecimento, sem muito estudo e coragem. Coragem, aí está o diferencial disto tudo. É intrépido postar-se defronte uma situação aparentemente confortável, como a que atualmente tenho, e abnegar o orgulho, a vaidade, a consideração com os sonhos de um dia. Finalmente, para por cabo nesta introdução que faço, citarei motivos que me fazem pensar assim, em competências acadêmicas, pessoais, físicas e trabalhistas.

Primeiramente, falarei das questões acadêmicas, como forma de mostrar-me, ainda, racional. Há fatos irrefutáveis, mas há muito que não se sabe sem estar presente na instituição. O IME tem por característica formar profissionais com alto grau de instrução teórica, entusiastas das indagações e demonstrações, quase nada do que se ensina assim é feito sem dar satisfações embasadas. Isso é um lado altamente positivo, apesar do engenheiro ser um profissional voltado para o campo prático, a base que o IME proporciona o faz capaz de desenvolver métodos e sistemas próprios e versáteis, tornando-o um possível pesquisador de boa formação. Todavia, atualmente no Brasil, a pesquisa não é a forma mais comum de emprego, principalmente pela baixa remuneração, sem contar que a prática ainda é o objetivo máximo do engenheiro, mesmo ele exercendo a pesquisa como alvo de seu trabalho. Assim, a formação ideal envolveria ambas as partes, uma perfeita combinação entre prática e teoria, entre o trabalho propriamente dito e o estudo forte e focado. No Instituto, porém, a primeira parte se faz presente de uma maneira incorreta, o nível de cobrança é, de fato, altíssimo, as matérias, complexas por si próprias, são, por vezes, excessivamente aprofundadas, de modo que tangem a inutilidade. Se considerarmos que, graças a uma seleção prévia de bons alunos, o resultado geral ainda é positivo, mesmo com uma cobrança de elevadíssimo nível, isso se deve a méritos próprios, em sua maioria de casos, pois a qualidade do corpo docente deixa em muito a desejar. Mestres sem conhecimento da matéria, militares, em sua maior parte, que são designados a lecionar cadeiras que não dominam, mas que por suas condições profissionais devem cumprir a missão delegada sem ponderações, são comuns e acabam tornando-se um empecilho, de modo que, ao cabo de poucas semanas depois do ingresso no IME, boa parte dos alunos consideram as aulas inúteis e preferem estudar sozinhos, como é o meu caso. Há a cobrança de um histórico perfeito uma vez dentro do Instituto, de não se poder repetir alguma cadeira cursada com pena de expulsão caso ocorra, de não poder tirar notas abaixo de quatro nas últimas provas de cada período, pois a recuperação é conseqüência direta disto, de não poder incorrer em recuperação em mais de duas matérias. Além disso, características militares estão presentes, o que dificulta ainda mais o convívio com a instituição.

Reclamações inerentes ao caráter militar do IME são, realmente, subjetivas, pois há os que não se importam em receber ordens irracionais e fazê-las cumprir sem discussão, há os que não têm problemas em escutar desaforos desmerecidos e fazer-se de tolo, fingindo não se tratar de si. Eu não sou assim, sou questionador, racional, inconseqüente por falar o que penso na hora que bem me apetecer, o que não é nada bem visto no meio militar. Soldados, desde generais a alunos do IME, são forjados na mesma forma, feitos sob os auspícios de um modelo preconcebido e, de preferência, com poucas características próprias. A obsessão do exército por uniformidade acaba impondo absurdos extintos, traços marcantes e claros, sombras dos tempos de ditadura que são livremente divulgadas e exigidas em meio às suas fileiras. Eu sou mal visto por pensar, por agir e por falar conforme mandam as minhas ideologias, eu sou criticado por não defender os interesses do exército, sou punido ao bem entender dos meus superiores, não interessando se estou com razão ou sem. Os que possuem poder mandam, os que não, obedecem, é simples assim. Se tu és inteligente, se tens bons intuitos, se te preocupas com o trabalho bem feito, te taxam de revolucionário, de agressor do Sistema, se indisciplinado, e te trancam, até pensares como deve, como um militar, como um subalterno. Não há discussões, não há revoltas. A hombridade, que tanto tempo levara a teu pai incutir em ti, é desprezada, tua palavra não tem valor, estás sempre errado, sempre tens o interesse de burlar alguma tarefa ou regra, sempre desconfiam de ti, mas com base, apenas, que tu és um aluno e nada mais. Tratam-te com desconfiança e desdém, a igualha não faz parte dos dicionários militares, muito menos no IME. Exaltam as características dos combatentes sempre que possível, fazendo questão de que, em todas estas ocasiões, sejam ridicularizadas as qualidades dos engenheiros militares, utilizando-se de zombarias, ofensas e desaforos, quase sempre infundados e frutos de um receio absurdo: de comandar cabeças pensantes e, ditas, as melhores mentes do país. Assim acostuma-te a ser visto como um trapo, um peso morto que o exército faz o favor de carregar, negam a tua importância, subestimam-te e te ofendem, e deves acostumar-se com isso e obedecer, pois assim é a vida nas forças armadas. Esta subordinação toda acaba por formar submissos, pessoas que não possuem o costume de impor-se senão pela antiguidade, e não pela coerência como deveria ser e como é necessário fazer-se impor em uma empresa.

Tocado este assunto, fica claro que falarei agora de questões trabalhistas, pois as questões pessoais vêm sendo tratadas desde o começo deste relato. Parece que há um culto pela ignorância e irracionalidade nas esferas da administração do IME. Ao ingressar neste, havia um comandante, que no caso é também o reitor do Instituto, que primava pela racionalidade, abria concessões pertinentes, mostrava-se complacente com a preocupação dos alunos que não se destinariam a continuar no exército brasileiro a projetar-se no mercado, a buscar um bom emprego e boas oportunidades de trabalho. Este comandante foi transferido e hoje se aposentou, em seu lugar entrou uma sucessão de incapazes, que se mostram mais irracionais a cada dia que passa. Não só foi aumentada a cobrança na parte militar, os punidos agora o são sem direitos a justificativas, não podem explicar porque cometeram tais delitos, que em sua maioria são besteiras, como um atraso, que muitas vezes é causado pelo trânsito, bem como o foi na parte acadêmica, exigindo cada vez mais a dedicação integral por parte dos alunos. Acaba que a dedicação ao IME é tamanha e o tempo gasto para tal é tão exagerado, que não sobra tempo algum para dedicar-se a algo mais, como um curso de línguas, por exemplo, ou uma bolsa de pesquisa, ou mestrado no IMPA. Isso tudo prejudica diretamente a concretização da carreira do aluno, mas prejudicial de fato é a extinção dos estágios dos quarto, quinto e décimo períodos. Imagines um pedreiro que te chega, descreve em pormenores a construção de uma casa, em todos os detalhes mais singelos, mas te confessa que nunca construiu casa alguma, que sabe o que sabe por livros e pesquisas; tu deixarias tal pedreiro construir a tua casa? A resposta é negativa, decerto. Experiência é algo que não se aprende em livros, mas sim com o exercício da profissão, como um aprendiz. A hora de errar é no estágio, a hora de mostrar eficiência também, trata-se do teu futuro, dos teus sonhos, que serão usurpados por capricho de um general, que não se interessa na tua formação, mas apenas no fazer cumprir a missão de formar militares para as fileiras do exército, dificultando a tua vida no que for possível. É repetido incansavelmente que o IME é dispensável, que deviria vir a acabar, que não possui real necessidade para o exército. Enfim, mais uma vez neste breve relato, acabamos por cair nas ofensas e nos insultos, que são mais constantes, dentro e fora de sala de aula, do que qualquer um possa imaginar. Não possui real consciência do que é o IME senão aquele que faz parte de suas turmas, aquele que vira noites atrás de noites estudando e que nunca são suficientes. Há boas oportunidades para os alunos oriundos do Instituto? Claro, isso é verdade. Mas não há boas oportunidades para apenas estes alunos. Há outras boas instituições, sérias e com mais oportunidades ainda, haja visto que o IME não assina contrato de estágios com qualquer empresas e nem com bancos de investimento, estes que o que te escreve anseia em poder trabalhar. No campo dos estudos de engenharia, dentro do IME, as opções de especialidades caíram de onze para seis neste ano, e eu estou sujeito a esta mudança, já que só escolhemos a nossa especialidade ao fim do segundo ano de curso, então, por sorte, foram extintos os dois cursos que eu tinha interesse em fazer, não sobrando assim qualquer motivo para continuar o sacrifício que é estudar no Instituto.

Desta forma, ao cabo de tamanho desabafo, espero que tenham ficado claros alguns aspectos inerentes ao título de aluno do IME. Considero que tamanho esforço não será recompensado, por todos os motivos supramencionados e alguns a mais, cuja relevância não é tão significante para fazer parte de um relato deste calibre e com intuito de justificar uma aparente medida irracional. Que fique claro que a razão anda a meu lado, a cada passo, a cada palavra que agora surge em minha tela, ela, por mais que tu penses ao contrário, se é que assim o fazes, foi quem me fez aguardar demasiado tempo até concluir tal decisão. Foi apenas a cabo de muita reflexão que a coragem surgiu, o orgulho desabou e a incerteza fez-se presente novamente dos meus planos para o futuro. Mas acontece que agora surge uma oportunidade que antes eu não via, nem na melhor das perspectivas, a oportunidade de ser feliz, coisa que há muito tempo não sou.

Raphael Guarilha